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sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Gato Preto (The Black Cat) - parte II

 O Gato Preto (The Black Cat) - Edgar Allan Poe - A Tradução Livre




Nossa amizade durou dessa maneira por anos, durante os quais meu temperamento e caráter – através da ação da Intemperança Demoníaca[1] - tiveram (Eu me envergonho de confessar isso) uma radical alteração para pior. Eu cresci, dia após dia, mais mal-humorado, mais irritável, mais desatento aos sentimentos dos outros. Eu me permitia usar uma linguagem imoderada com minha mulher. Por muito tempo, até cheguei a usar de violência com ela. Meus animais, é claro, sentiram a mudança em meu caráter. Eu não apenas os negligenciava, como fazia mal para eles. Por Pluto, entretanto, eu ainda mantinha a consideração que me continha de maltratá-lo, como fiz inescrupulosamente ao maltratar os coelhos, o macaco, ou mesmo o cachorro, quando por acidente, ou por afeto, eles passavam pelo meu caminho. Mas minha doença cresceu sobre mim – e que doença terrível é o álcool! – e com o tempo mesmo Pluto, que agora estava se tornando velho, e consequentemente de alguma forma, impertinente – até mesmo Pluto começou a experimentar os efeitos do meu mau humor.


Uma noite, voltando para casa de um dos meus lugares favoritos[2] na cidade muito intoxicado, eu supus que o gato evitava minha presença. Eu o agarrei, quando, em seu medo de minha violência, ele causou um leve machucado sobre minha mão com seus dentes. A fúria de um demônio instantaneamente se apossou de mim. Eu não me reconhecia mais. Minha alma original pareceu voar de meu corpo, e uma malevolência demoníaca, nutrida pelo gim, arrepiou cada fibra do meu ser. Eu tirei do bolso de meu colete um canivete, abri-o, agarrei a pobre criatura pela garganta, e deliberadamente arranquei um de seus olhos da órbita! Eu coro, eu queimo, eu tremo, enquanto descrevo tão condenável atrocidade.

Quando a razão voltou com a manhã – quando eu havia me livrado da fumaça do deboche noturno – eu experimentei um sentimento que era meio horror, meio remorso, pelo crime do qual eu era culpado, mas foi apenas um débil e equivocado sentimento, e minha alma permaneceu intocada. Novamente eu mergulhei no excesso, e logo afoguei no vinho toda a lembrança de minha ação.

Durante esse tempo o gato vagarosamente se recuperou. A órbita do olho perdido apresentava, isso é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia mais sofrer nenhuma dor. Ele andou pela casa como de costume, mas, como era de se esperar, fugia com extremo terror à minha chegada. Tanto restara de meu velho coração que primeiramente fiquei triste por esse evidente desgosto por parte de uma criatura que um dia tanto me amara. Mas esse sentimento logo deu lugar à irritação. E depois veio, como minha final e irrevogável ruína, o espírito da Perversidade. Da filosofia desse espírito não estava ciente. Eu não estou certo que minha alma é viva tanto quanto o estou sobre a perversidade ser um dos impulsos primitivos do coração humano – umas das faculdades primárias indivisíveis ou sentimentos que deram direção ao caráter do Homem. Quem, uma centena de vezes, não encontrou a si mesmo cometendo uma vil ou estúpida ação por nenhuma razão a não ser por que sabia que não deveria? Não teríamos nós a inclinação, diretamente do nosso melhor julgamento, de violar o que é Lei, simplesmente porque nós achamos que assim o devemos fazer? Desse espírito de perversidade, eu digo, veio à minha ruína final. Era esse anseio insondável da alma de aborrecer-se – para oferecer violência em sua própria natureza – para fazer o errado apenas por fazer – que me incitava a continuar e finalmente terminar o ferimento que eu havia infligido ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, escorreguei um laço em volta de seu pescoço e pendurei-o no galho de uma árvore; assim o fiz com as lágrimas correndo em meus olhos, e com o mais amargo remorso em meu coração, pendurei-o porque eu sabia que um dia ele havia me amado, e porque eu senti que nunca havia me dado razão para ofensa; pendurei-o porque sabia que assim estaria eu cometendo um pecado – um pecado mortal que prejudicaria minha alma imortal que a colocaria no lugar, se é que algo assim fosse possível, mesmo além do alcance da infinita misericórdia do Mais Misericordioso e Mais Terrível Deus.

Continua:

Parte III: http://goo.gl/rSywta
Parte IV: http://goo.gl/j5pjUL





[1] N.T. O termo original Fiend Intemperance refere-se ao problema do narrador com o álcool.
[2] N.T. O termo original tanto significa toca, covil, quanto lugar favorito.

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