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domingo, 19 de maio de 2013

O Gato Preto (The Black Cat) - parte IV

O Gato Preto (The Black Cat) - Edgar Allan Poe - A Tradução Livre



Sob a pressão de tormentas como essa, o debilitado remanescente de bem que havia em mim sucumbiu. Pensamentos perversos tornaram-se meus únicos íntimos – o mais escuro e tenebroso dos pensamentos. O mal humor costumeiro de meu temperamento se tornou ódio de todas as coisas e toda humanidade; enquanto das súbitas, frequentes e ingovernáveis explosões de fúria às quais cegamente me abandonei, minha esposa sem queixas, ai! foi a mais comum e mais paciente dos sofredoras.

Um dia ela me acompanhou em alguma incumbência familiar no porão do velho prédio onde, por nossa pobreza, éramos obrigados a morar.  O gato me seguiu escada abaixo pelos íngremes degraus, quase me derrubando de cabeça, exasperando-me. Erguendo um machado, e esquecendo em minha ira do pavor infantil que até agora permanecera sobre mim, eu intentei um golpe no animal, o qual é claro haveria de ser instantaneamente fatal como eu queria. Mas esse ataque foi impedido pela mão de minha mulher. Incitado pela interferência de uma raiva mais que demoníaca, eu afastei meu braço de seu alcance e enterrei o machado em seu cérebro. Ela caiu morta sobre o local sem nem um gemido.

Com esse assassinato hediondo completado, eu entreguei-me imediatamente e com completa ponderação à tarefa de esconder o corpo. Eu sabia que não poderia removê-lo da casa, fosse de dia ou à noite, sem correr o risco de ser observado por vizinhos. Muitos projetos se passaram pela minha mente. Até pensei em cortar o corpo em muitos fragmentos e depois destruí-los usando fogo. Outra ideia foi cavar uma cova pra ele no piso do porão. Novamente, eu considerei atirá-lo no jardim – ou colocá-lo em uma caixa, como fosse mercadoria, com os arranjos usuais e arrumar um carregador para retirá-la de minha casa. Finalmente encontrei o que eu considerei o melhor meio de todos. Eu decidi esconder o corpo atrás da parede do porão – como os monges da idade média faziam com suas vítimas.

Para esse propósito o porão foi bem adaptado. Suas paredes foram folgadamente construídas e haviam sido gessadas com reboco, o qual a umidade da atmosfera havia evitado endurecer. Além disso, em uma das paredes havia uma saliência causada por uma falsa chaminé ou lareira, que havia sido preenchida e feita para parecer com o restante do porão. Não tive dúvidas de que poderia prontamente retirar os tijolos dessa parte, colocar o corpo, e emparedar tudo como antes, assim nenhum olho detectaria nada de suspeito.

E nesse cálculo eu não estava enganado. Por meio de uma alavanca eu facilmente retirei os tijolos, e tendo cuidadosamente depositado o corpo contra a parede interna, eu o escorei naquele lugar, enquanto com pouco esforço eu substituí toda a estrutura como estava originalmente. Tendo procurado argamassa, areia, e cabelo com toda precaução possível, eu preparei o gesso que não poderia ser distinguido do antigo, e com ele eu cuidadosamente voltei à alvenaria. Quando eu terminei, senti-me satisfeito por tudo estar bem. A parede não apresentava o mínimo sinal de mudança. O entulho no chão foi recolhido com minucioso cuidado. Eu olhei em volta triunfalmente, e disse a mim mesmo – “Aqui finalmente, então, meu trabalho não foi em vão.”

Meu próximo passo foi procurar a besta que fora a causa de tanta miséria, pois havia por fim decidido matá-lo. Se houvesse tido a chance de encontrá-lo naquele momento, seria este sem dúvida o seu destino, mas parece que o astuto animal fora alarmado pela violência de minha raiva anterior, e evitou aparecer durante meu presente mal humor. É impossível descrever ou imaginar o profundo e feliz sentimento de alívio que a ausência da criatura detestável ocasionou em minha alma. Ele não apareceu durante a noite – e assim por uma noite finalmente, desde a sua adoção em minha casa eu dormi solida e tranquilamente, sim, dormi mesmo com o peso de uma morte sobre minha alma!

O segundo e o terceiro dia passaram, e ainda meu algoz não voltara. Mais uma vez eu respirava como um homem livre. O monstro, aterrorizado, abandonara o local para sempre! Não teria mais que vê-lo! Minha felicidade era suprema! A culpa de meu ato negro me perturbou, mas pouco. Alguns inquéritos foram feitos, mas foram eles prontamente respondidos. Até mesmo uma busca foi instituída – mas é claro que nada foi encontrado. Eu considerei minha futura felicidade como certa.

No quarto dia após o assassinato, um pequeno destacamento da polícia veio muito inesperadamente a adentrar minha casa, e prosseguiu novamente com uma rigorosa investigação do local. Seguro, entretanto, da inescrutabilidade do meu esconderijo oculto, eu não me perturbei de forma alguma. Os policiais ofereceram-me a chance de acompanhá-los em sua busca. Eles não deixaram nenhum canto inexplorado. Após algum tempo, pela terceira ou quarta vez eles desceram até o porão. Eu não movia um músculo. Meu coração batia calmamente como se fora de alguém no torpor da inocência. Eu andei no porão do começo ao fim. Cruzei meus braços sobre meu peito, e percorria facilmente de lá pra cá. A polícia estava completamente satisfeita, e preparava-se para sair. A alegria em meu coração era muito forte para ser restringida. Eu ardia por dentro para dizer ao menos uma palavra de triunfo, e para tornar mais garantida a sua certeza de minha inculpabilidade.

“Senhores,” por fim disse eu, enquanto o destacamento subia as escadas, “Tenho prazer de ver suprimidas as suas suspeitas. Desejo-lhes a todos saúde, e um pouco mais de cortesia. E esta casa, senhores, esta – esta é uma casa muito bem construída,” (No desejo raivoso de dizer alguma coisa facilmente, mal sabia o que realmente dissera,) “Devo dizer uma casa realmente muito bem construída. Estas paredes – estão indo, senhores? – estas paredes estão solidamente unidas;” e aqui, através de um mero frenesi de desafio, eu bati fortemente um cano o qual eu segurava sobre aquela exata parte da alvenaria atrás da qual permanecia o corpo de minha querida esposa.

Mas que o escudo de Deus livre-me das garras do demônio! Tão logo a reverberação de meu golpe se afundou em silêncio, eu fui respondido por uma voz de dentro da tumba! – por um choro, primeiramente abafado e quebrado, como o soluço de uma criança, e depois rapidamente crescendo para um longo, alto e contínuo grito, completamente anômalo e desumano – um uivo – um guincho lamentoso, meio de horror, meio de triunfo, como algo que apenas surgiria do inferno, conjuntamente das gargantas dos amaldiçoados em sua agonia e dos demônios exultantes na danação.

De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desmaiando, cambaleei para a parede oposta. Por um instante os policiais sobre as escadas permaneceram imóveis, por conta do extremo terror e de espanto. No momento seguinte uma dúzia de robustos braços movia-se para derrubar a parede. Ela caiu completamente. O corpo, já muito apodrecido e coagulado com sangue, permaneceu em pé diante dos olhos dos espectadores. Sobre sua cabeça, com a boca em vermelho estendida e um olho solitário de fogo, estava sentada a besta horrível cuja astúcia induziu-me a matar, e cuja voz entregou-me aos carrascos. Eu levantara a parede com o monstro dentro da tumba.


Fim

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