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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Silêncio, um conto (Silence, a Fable)

Silêncio, um conto - Edgar Allan Poe - A Tradução Livre

Álcman[1]. Os pináculos da montanha dormem; vales, despenhadeiros e cavernas estão calados.

“Ouça-me”, disse o Demônio conforme colocava sua mão sobre minha cabeça. “O lugar sobre o qual eu falo é uma sombria região na Líbia, próxima às fronteiras do rio Zaire[2]. E não há silêncio lá, nem quietude. As águas do rio têm uma pálida matiz de açafrão; e elas fluem não em direção ao mar, mas palpitam incessantemente e sempre sob o olho vermelho do sol com uma moção tumultuosa e convulsiva. Por muitas milhas em cada lado do lodoso leito do rio há um pálido deserto de gigantes nenúfares. Eles suspiram um até o outro naquela solidão, e esticam aos céus seus longos e medonhos pescoços, e acenam para lá e para cá suas perpétuas cabeças. E há um murmúrio indistinto que vem do meio deles como a corrida da água subterrânea. E eles suspiram um até o outro.”

“Mas há um limite para seu reino – o limite da negra, horrível e imponente floresta. Lá, como as ondas sobre as Hébridas[3], a baixa vegetação rasteira é agitada continuamente. Mas não há vento em todo o céu. E as altas árvores primitivas balançam eternamente para cá e para lá com um som estrondoso e poderoso. E de suas altas cúpulas, uma a uma, derramam infinitos orvalhos. E junto às raízes, estranhas flores venenosas permanecem se contorcendo em perturbado torpor. E sobre tudo, com um farfalhar e um alto ruído, as nuvens cinza correm para o oeste incessantemente, até que elas deslizam, uma catarata, sobre a ardente muralha do horizonte. Mas não há vento em todo o céu. E junto às margens do rio Zaire não há nem silêncio nem quietude.”

“Era noite, e a chuva caía; e caindo, era chuva, mas, tendo caído, era sangue. E eu ficava no pântano entre as altas árvores e a chuva caía sobre minha cabeça – e os lírios sussurravam um para o outro na solenidade de sua desolação.”

“E, repentinamente, a lua surgiu através da tênue névoa medonha, e tinha uma cor carmesim. E meus olhos caíram sobre uma grande rocha cinza que estava próxima da margem do rio, e era iluminada pela luz da lua. E a rocha era cinza, e medonha, e alta, - e a rocha era triste. Sobre sua fronte havia caracteres gravados na pedra; e eu andei pelo pântano de nenúfares, até que cheguei perto da margem, para que pudesse ler os caracteres sobre a pedra. Mas não pude decifrá-los. E eu estava voltando para o pântano, quando a lua brilhou um vermelho mais pleno, e eu me voltei e olhei novamente para a rocha, e para os caracteres; - e os caracteres formavam DESOLAÇÃO.”

“E eu olhei para cima, e lá havia um homem sobre o cume da rocha; e eu me escondi entre os nenúfares para descobrir as ações do homem. E o homem era alto e imponente, e estava envolto de seus ombros a seus pés em uma toga da Roma antiga. E os contornos de sua figura estavam indistintos – mas suas características eram de alguma divindade; pois o manto da noite, e da névoa, e da lua e do orvalho haviam deixado descobertas as características de seu rosto. E sua testa estava tensa com a reflexão que fazia, e seu olho, selvagem de cautela; e, nos poucos sulcos sobre sua bochecha eu lia as fábulas de tristeza e cansaço e desgosto com a humanidade, e uma saudade após a solidão.”

“E o homem sentou-se sobre a rocha, e inclinou sua cabeça sobre sua mão, e olhou para a desolação. Ele olhou para baixo, para os baixos arbustos inquietos, e para as altas árvores primitivas, e para o céu sussurrante, e para a lua carmesim. E eu me coloquei junto à proteção dos lírios, e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; - mas a noite diminuía, e ele se sentava sobre a rocha.”

“E o homem tirou sua atenção do céu, e olhou sobre o triste rio Zaire, e sobre as medonhas águas amarelas, e sobre as pálidas legiões de nenúfares. E o homem ouviu os sussurros dos nenúfares, e o murmúrio que vinha dentre eles. E eu permanecia sob meu abrigo e observava as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; - mas a noite diminuía, e ele se sentava sobre a rocha.”

“Então eu desci para as reentrâncias do pântano, e andei muito pela selvageria dos lírios, e clamei aos hipopótamos que habitavam entre os atoleiros e as reentrâncias do pântano. E os hipopótamos ouviram meu chamado e vieram, com o gigante, até a base da rocha, e rugiram alto e temerosamente sob a lua. E eu permaneci sob meu abrigo e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; - mas a noite diminuía, e ele se sentava sobre a rocha.” “Então eu amaldiçoei os elementos com a maldição do tumulto; e uma tempestade assustadora se formou no céu onde antes não havia vento. E o céu se tornou lívido com a violência da tempestade – e a chuva caiu sobre a cabeça do homem – e o fluxo do rio veio abaixo – e o rio estava em uma tormenta de espuma – e os nenúfares guincharam dentro de suas camas – e a floresta ruiu ante ao vento – e o trovão se fez – e o raio caiu – e a rocha abalou sua fundação. E eu permaneci sob meu abrigo e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; - mas a noite diminuía, e ele se sentava sobre a rocha.”

Então fiquei irritado e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os lírios, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os sussurros dos nenúfares. E eles se tornaram malditos, e ficaram parados. E a lua deixou de cambalear em seu caminho no céu – e o trovão morreu – e o raio não aconteceu – e as nuvens se penduraram imóveis – e as águas voltaram ao seu nível e permaneceram – e as árvores pararam de balançar – e os nenúfares não mais suspiraram – e o murmúrio não era mais ouvido entre eles, nem nenhuma sombra de som por todo o vasto deserto ilimitado. E eu olhei para os caracteres da rocha, e eles haviam mudado; - e os caracteres formavam SILÊNCIO.”

“E meus olhos caíram sobre o semblante do homem, e seu semblante estava pálido de terror. E, apressadamente, ele ergueu a cabeça de sua mão, e ficou sobre a rocha e escutou. Mas não havia voz por todo o vasto deserto ilimitado, e os caracteres sobre a rocha formavam SILÊNCIO. E o homem estremeceu, e voltou sua face para longe, e fugiu apressado, então não mais eu o contemplei.”

Atualmente há ótimas histórias nos volumes dos Magos – nos melancólicos e inflexíveis volumes dos Magos. Ali, eu digo, há gloriosas histórias do Céu, e da Terra, e do poderoso mar – e dos gênios que comandavam o mar, e a terra, e o elevado céu. Há também muito conhecimento nos ditos que são proferidos pelas sibilas; e coisas muito, muito santas foram ouvidas pelas folhas escurecidas que tremulavam ao redor de Dodona[4] – mas, enquanto Alá viver, aquela fábula que o Demônio me contou enquanto sentava ao meu lado na sombra da tumba, eu acho que é a mais bela de todas! E enquanto o Demônio dava um fim à sua história, ele caiu para dentro da cavidade da tumba e riu. E eu não pude rir com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque não pude rir. E a lince que para sempre morou na tumba saiu de dentro dela e ficou junto aos pés do Demônio, e olhou firmemente para seu rosto.






[1] N. T. Poeta Grego que viveu no séc. VII a.C.
[2] N. T. Segundo maior rio da África.
[3] N. T. Arquipélago localizado na costa oeste da Escócia.
[4] Sítio arqueológico localizado próximo à cidade de Tomaros, na Grécia.


Silêncio, um conto - Edgar Allan Poe - A Tradução Livre

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