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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Símbolos e Sinais (Symbols and Signs) - Vladimir Nabokov (parte I)

Símbolos e Sinais (Symbols and Signs) - Vladimir Nabokov - A Tradução Livre

Pela quarta vez em muitos anos, eles se confrontaram com o problema de qual presente dar para um jovem que era incuravelmente desordenado em sua mente. Desejos ele não tinha. Objetos feitos pelo homem para ele eram ou abrigo do mal, vibrantes com sua maligna atividade que somente ele percebia, ou grosseiros confortos a que nenhum uso poderia ser encontrado em seu mundo abstrato. Após eliminar vários artigos que poderiam ofender ou assustá-lo (qualquer coisa na linha de aparelhos, por exemplo, era um tabu), seus pais escolheram uma singela e inocente guloseima – uma cesta com dez diferentes geleias de frutas em dez diferentes frascos.

Na época de seu nascimento, eles já estavam casados há muito tempo; uma contagem de anos havia decorrido, e agora eles estavam bem velhos. Seu monótono cabelo cinza estava descuidadamente preso. Ela usava baratos vestidos pretos. Diferentemente de outras mulheres de sua idade (como a senhora Sol, sua vizinha, cuja face era toda rosa e lilás com pintura e cujo chapéu era um cacho de flores), ela apresentava um semblante branco em relação à censuradora luz da primavera. Seu marido, que no velho país havia sido um relativamente bem sucedido homem de negócios, era agora, em Nova Iorque, totalmente dependente de seu irmão Isaac, um verdadeiro americano de quase quarenta anos. Eles raramente viam Isaac e tinham lhe dado o apelido de Príncipe.
Naquela sexta, aniversário de seu filho, tudo deu errado. O metrô perdeu sua fonte de alimentação entre duas estações e por quinze minutos eles não podiam ouvir nada além da obediente batida de seus corações e o farfalhar de jornais. O ônibus que tinham que pegar se atrasou e os fez esperar por muito tempo em uma esquina, e quando finalmente chegou, estava abarrotado com tagarelas alunos do ensino médio. Começou a chover quando eles subiam o trajeto que levava ao sanatório. Lá eles esperaram novamente, e ao invés de seu filho, embaralhado na sala como ele costumava ficar (seu pobre rosto carrancudo, confuso, mal barbeado, e manchado de espinhas), uma enfermeira que eles conheciam e com quem não se importavam apareceu finalmente e brilhantemente explicou que ele havia novamente tentado tirar sua vida. Ele estava bem, ela disse, mas uma visita de seus pais poderia perturbá-lo. O lugar sofria tão miseravelmente com falta de funcionários, e coisas eram extraviadas ou misturadas tão facilmente, que eles decidiram não deixar seu presente no escritório, mas trazê-lo para seu filho na próxima vez em que viessem.
Fora do prédio, ela aguardou seu marido abrir seu guarda-chuva e depois lhe deu o braço. Ele ficou limpando a garganta, como sempre fazia quando estava chateado. Eles chegaram ao abrigo do ponto de ônibus do outro lado da rua e ele fechou seu guarda-chuva. A poucos passos dali, sob uma oscilante e gotejante árvore, um pequeno pássaro imaturo estava impotente se contorcendo em uma poça d’água.
Durante a longa jornada para a estação de metrô, ela e seu marido não trocaram uma palavra, e cada vez que ela olhava as velhas mãos dele, cruzadas e contraídas sobre a alça do guarda-chuva, e via suas veias inchadas e a pele com pontos marrons, ela sentia a crescente pressão de lágrimas. Conforme olhava em volta, tentando se ater a algo, sentiu um certo choque leve, uma mistura de compaixão e espanto, ao notar que um dos passageiros – uma menina com cabelo preto e sujas unhas vermelhas – estava chorando no ombro de uma mulher mais velha. A quem aquela mulher se assemelhava? Ela se parecia com Rebecca Borisovna, cuja filha casara-se com um dos Soloveichiks – em Minsk, anos atrás.
A última vez que o garoto tentou fazê-lo, seu método fora, nas palavras do doutor, uma obra-prima de inventividade; ele haveria de conseguir, não fosse um invejoso paciente pensar que ele estava aprendendo a voar e o parado antes. O que ele realmente queria fazer era rasgar um buraco em seu mundo e escapar.
O sistema de seus delírios havia sido objeto de estudo de um elaborado trabalho em uma revista científica, a qual o doutor no sanatório dera para eles lerem. Mas muito antes disso, ela e seu marido haviam decifrado aquilo por eles mesmos. “Mania referencial” era o nome dado pelo artigo. Nesses casos muito raros, o paciente imagina que tudo o que acontece ao seu redor é uma referência velada à sua personalidade e existência. Ele exclui pessoas reais da conspiração porque ele se considera muito mais inteligente que outros homens. Uma natureza fenomenal obscurece-o aonde quer que ele vá. Nuvens no céu aberto transmitem umas às outras, através de lentos sinais, informações incrivelmente detalhadas sobre ele. Seus pensamentos mais íntimos são discutidos ao anoitecer, em alfabeto manual, por árvores sombriamente gesticuladoras. Seixos, nódoas ou manchas solares formam padrões representando, de alguma maneira terrível, mensagens que ele deve interceptar. Tudo é cifrado e em tudo ele é o tema. Por todo lado em volta dele, há espiões. Alguns deles são observadores isolados, como superfícies de vidro e piscinas imóveis; outros, como casacos em vitrines de lojas, são testemunhas preconceituosas, no fundo linchadoras; outras, ainda (água corrente, tempestades), são histéricas a ponto da insanidade, e têm uma opinião distorcida dele, e grotescamente interpretam mal suas ações. Ele deve estar sempre em guarda e devotar cada minuto e modo de vida a decodificar a ondulação das coisas. O próprio ar que expira é indexado e arquivado. Se ao menos o interesse que ele provoca fosse limitado ao seu ambiente próximo, mas, ai, não é! Com a distância, as torrentes do selvagem escândalo aumentam em volume e volubilidade. As silhuetas dos corpúsculos de seu sangue, ampliadas em um milhão de vezes, borboletam sobre vastas planícies; e ainda mais longe, grandes montanhas de insuportáveis solidez e altura se acumulam, em termos de granito e gemendo abetos, a verdade última de seu ser.

Fonte do texto original (completo): http://goo.gl/FlhjW5
A Parte II do texto 'Símbolos e Sinais (Symbols and Signs)' vai ser publicada nessa sexta, dia 10/01/14. A Parte II será publicada dia 14/01/14.

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