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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Símbolos e Sinais (Symbols and Signs) - Vladimir Nabokov (parte II)

Símbolos e Sinais (Symbols and Signs) - Vladimir Nabokov - A Tradução Livre

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Quando eles emergiram do sujo ar do metrô, as últimas luzes do dia se misturavam com as luzes da rua. Ela queria comprar alguns peixes para a janta, então ela deu a ele a cesta de frascos de geleia, dizendo-o para ir pra casa. Assim, ele retornou para seu cortiço, andou até o terceiro patamar, e então se lembrou de que havia dado suas chaves a ela mais cedo naquele dia.
Em silêncio, ele se sentou nos degraus e em silêncio se levantou quando, uns dez minutos depois, ela veio caminhando pesadamente pelas escadas, sorrindo palidamente e balançando sua cabeça em desaprovação à sua tolice. Eles entraram em seu apartamento de dois cômodos e ele foi diretamente ao espelho. Tencionando os cantos de sua boca usando seus dedos, com uma horrível careta, ele removeu sua nova e terrivelmente desconfortável placa dental. Ele leu seu jornal em russo enquanto ela punha a mesa. Ainda lendo, ele comeu os pálidos mantimentos que não precisavam de dentes. Ela sabia de seu humor e também ficou quieta.
Quando ele foi para a cama, ela permaneceu na sala de estar com seu sujo pacote de cartas de jogar e seus velhos álbuns de fotografia. Sobre o estreito pátio, onde a chuva tilintava no escuro contra algumas latas de cinza, janelas eram suavemente acesas, e em uma delas um homem com calças pretas, com suas mãos apertadas sob sua cabeça e seus cotovelos levantados, podia ser visto deitado indolente sobre uma cama desarrumada. Ela abaixou a veneziana e examinou as fotografias. Quando bebê, ele parecia mais surpreso que a maioria dos bebês. Uma fotografia da empregada alemã que eles tiveram em Leipzig e seu noivo de cara rechonchuda caiu de uma dobra do álbum. Ela virou as páginas do livro: Minsk, a Revolução, Leipzig, Berlin, Leipzig novamente, uma frente de casa inclinada, meio fora de foco. Aqui estava o menino quando ele tinha quatro anos, em um parque, timidamente, com a testa enrugada, desviando o olhar de um esquilo ansioso, como ele fazia com qualquer outro estranho. Aqui estava a tia Rosa, uma espalhafatosa e angular mulher de olhos largos, que viveu em um trêmulo mundo de más notícias, falências, acidentes de trem, e crescimentos cancerosos até que os alemães a mataram, juntamente com todas as pessoas com as quais ela se preocupara. O menino, com seis anos – isso foi quando ele desenhou lindos pássaros com mãos e pés humanos, e sofreu de insônia como um homem feito. Seu primo, agora um famoso jogador de xadrez. O menino novamente, com oito anos, já difícil de entender, com medo de um papel de parede na passagem, com medo de uma certa figura em um livro, que mal mostrava um cenário idílico com pedras sobre uma colina e uma velha roda de carro pendurada em um dos galhos de uma árvore desfolhada. Aqui ele estava com dez anos – o ano em que eles deixaram a Europa. Ela lembrava-se da vergonha, da dó, das humilhantes dificuldades da viagem, e das feias, perversas e atrasadas crianças com quem ele estava na escola especial onde ele foi colocado depois que chegaram à América. E depois veio uma época em sua vida, coincidindo com uma longa convalescença depois da pneumonia, quando aquelas suas pequenas fobias, as quais seus parentes haviam teimosamente considerado excentricidades de uma prodigiosa criança talentosa, tornaram-se mais duras, transformando-se em um denso enredo de ilusões logicamente interativas, tornando-as totalmente inacessíveis às mentes normais.
Tudo isso, e muito mais, ela aceitou pois, afinal, viver significa aceitar a perda de uma alegria após outra, não apenas alegrias em seu caso, meras possibilidades de melhora. Ela pensou que as ondas recorrentes de dor que por alguma razão ou outra ela e seu marido haviam suportado; dos invisíveis gigantes machucando seu filho de alguma maneira inimaginável; da quantidade incalculável de ternura contida no mundo; do destino dessa ternura, que é ou esmagada ou gasta, ou transformada em loucura; ou crianças negligenciadas sussurrando para si mesmas em cantos sujos; de belas ervas que não podem se esconder do fazendeiro.

Fonte do texto original (completo): http://goo.gl/FlhjW5
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